A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento de nosso entendimento por meio de nossa linguagem. (PU §109)

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Locke e a Linguagem: Reflexões Sobre o Capítulo I do Livro III do Ensaio sobre o Entendimento Humano

Tradução e Comentário do Capítulo I do Livro III do Ensaio sobre o Entendimento Humano

Introdução

John Locke (1632–1704) é conhecido como um dos filósofos mais influentes do Iluminismo e como precursor do empirismo moderno. Sua obra, o Ensaio sobre o Entendimento Humano (1689), busca investigar os limites e capacidades do conhecimento humano, abordando temas como as ideias, a percepção, a linguagem e a comunicação.

No Livro III, Locke apresenta o papel da linguague, uma ferramenta indispensável para o pensamento e a comunicação das ideias. No Capítulo I, intitulado Das Palavras ou da Linguagem em Geral, o autor discute como a linguagem é um instrumento essencial para a interação humana e explora as condições de seu uso eficaz.

Abaixo, apresentamos a tradução, parágrafo a parágrafo, do Capítulo I, acompanhada de comentários que destacam os principais pontos e contextualizam as ideias de Locke. Os comentários que irei realizar foram formulados com base nas discussões que ocorreram nas reuniões ordinárias do Grupo de Pesquisas Dissoi Logoi (UNIFESP) em Novembro de 2024.

Tradução e Comentário do Capítulo I do Livro III

Das palavras ou da linguagem em geral

§ 1. Homem é adequado para articular sons

Deus, tendo projetado o Homem como uma criatura sociável, o fez não apenas com uma inclinação, e sob a necessidade de ter companheirismo com aqueles de sua própria espécie; mas forneceu-lhe também a linguagem, que seria o grande Instrumento e vínculo comum da Sociedade. O Homem, portanto, tinha por natureza seus órgãos tão formados, a ponto de serem adequados a acomodar sons articulados, que chamamos de palavras. Contudo, isso não foi suficiente para produzir a linguagem; pois papagaios e várias outras aves podem ser ensinadas a emitir Sons distintos o suficiente, que ainda assim, de forma alguma, são capazes de linguagem.

§ 1. Comentário

Neste parágrafo, Locke apresenta a linguagem como um instrumento, dado por Deus, para promover a sociabilidade e estabelecer o vínculo comum da Sociedade. Neste contexto a linguagem parece desempenhar um papel mais modesto na argumentação de Locke do que aquele atribuido pelos filósofos que se compromentem com o λόγος (logos) constituidor de parte da essência humana. A fórmulação λόγον ἔχον a parece em Aristóteles, na Ética a Nicômaco I. 13 [1102a5 – 1103a10], como uma característica que distingue o Humano tanto da vida nutritiva que comartilhamos com as plantas, quanto da vida instintiva que compartilhamos com outros animais. Entretanto, embora possamos constatar que a fórmulação da essência humana como “animal racional” tenham origem na filosofia Aristotélica, será a tradição escolástica quem elevará a qualificação de rationale à condição de princípio que separa o Homem das outras criaturas, pois na educação medieval a introdução padrão aos trabalhos de Aristóteles se dava através da Isagoge de Porfírio e o método per genus et differentiam é amplamente difnundico entre as pessoas com acesso à educação na forma das “árvores de porfírio”. Também não é claro para os comentádores se o próprio Porfírio dava relevância à divisão em gênero e espécie, mas o fato é que essa divisão foi desenvolvida em árvores pelos lógicos medievais aparecendo como parte do método de Introdução à Lógica de Guillielmus de Shireswode, no séc. XII, e do Summulae Logicales  de Petrus Ferrandis Hispanus no séc. XIII. Locke irá contestar explicitamente o método escolástico de divisão per genus et differentiam a partir do Capítulo III, §9.

Importante notar neste trecho é a maneira como o contexto histórico/econômico de Locke – que viveu em meio às turbulentas décadas que sucederam a Guerra Civil Inglesa e ativamente participou da revolução puritana e a revolução gloriosa – influenciam sua imagem deflacionada do papel da linguagem na vida humana. Na contramão da tradição grego/católica da filosofia, a linguagem em Locke não desempenha o papel ontológico enquanto parte da essência humana, nem desempenha um papel epistemológico enquanto constituidora dos pensamentos (a prórpia estrurura do Ensaio mostra que os pensamentos são anteriores à linugagem). A linguagem irá desempenhar apenas o modesto papel de instrumento da sociabilidade humana. Ela será o principal meio da comunicação entre os indivíduos e permitirá o compartilhamento das ideias sem, contudo, ser considerada como refletindo a realidade de forma direta e completa, nem mesmo refletindo a interioridade dos pensamentos de forma direta e completa.

Por fim, o parágrafo deixa explicito que a capacidade física de produzir sons não é suficiente como constituidora da linguagem. Para Locke a linguagem envolve a capacidade de associar esses sons a ideias e conceitos de forma a comunicar significados. Ao afirmar que ela não se resume aos sons, Locke reconhece que a Linguagem não é um reflexo direto da realdade. As palavras são cosideradas como construções humanas que podem ser imrecisas e ambíguas ao transmitir os conteúdos epistemológicos que veiculam.


§ 2. Para torná-los Sinais de Ideias

Além de articular Sons, portanto, era mais necessário que ele fosse capaz de usar esses Sons como Sinais de Concepções internas; e de fazê-los permanecer como marcas para as Ideias em sua própria Mente, por meio das quais podem ser feitas conhecidas por outros, e pudessem ser comunicadas a outros, e os pensamentos das Mentes dos Homens  serem transmitidos de um para outro.

§ 2. Comentário

Aqui, Locke destaca que a linguagem não se resume à simples articulação de sons. O aspecto relevante da linguaguem é empregar os Sons como sinais de ideias, i.e., tornar sons as marcas das de um processo interno. Dessa maneira, começa-se a esboçar o argumento de que os sons funcionam como marcas das ideias que cada indivíduo tem em sua própria mente, servindo como as “pontes comunicativas” – o “espaço comum” – entre mentes distintas. Assim, a linguagem surge como um instrumento que fixa os pensamentos na forma de palavras, permitindo que sejam transmitidos de uma pessoa para outra.

Essa visão realça dois aspectos relevantes para a comunicação:

  1. Compartilhamento dos processos internos (a comunicação de ideias): Uma vez que essas marcas (palavras) se tornem sinais das ideias, elas possibilitam a transmissão do conteúdo mental de uma pessoa para outra, fomentando a troca de conhecimentos.
  2. Conexão intencional entre som e ideia: Para que haja linguagem significativa, não basta emitir sons; é necessário estabelecê-los de forma voluntária, intencional e sistemática como os portadores de das ideias que eles representam.

A linguagem, portanto, não é meramente um fenômeno sonoro e em seu uso efetivo ela não deixa marcas. Ao envolver a capacidade de criar e utilizar sinais intencionais que representem e tornem acessiveis as ideias, a linguagem efetiva não deixa nenhum resíduo, conectando diretamente os conteúdos na mente do falante aos conteúdos na mente do ouvinte. Entretanto, compreender as palavras como as marcas das ideias não basta para o uso eficiente da linguagem.


§ 3. para torná-los sinais gerais

Contudo, nem isso foi suficiente para tornar as Palavras tão úteis quanto deveriam ser. Não é suficiente, para a perfeição da Linguagem, que os Sons possam ser tornados sinais de Ideias, a menos que esses sinais possam ser usados de maneira a englobar várias Coisas particulares. Pois a multiplicação de Palavras teria deixado perplexo seu Uso, se cada coisa particular precisasse de um nome distinto para ser significada. Para remediar esse inconveniente, a linguagem teve ainda mais um aperfeiçoamento no uso de Termos gerais, pelos quais uma palavra torna-se a marca de uma multiplicidade de existência particulares. Cujo uso vantajoso dos Sons foi obtido apenas pela diferença das ideias das quais eles foram feitos sinais. Aqueles nomes que se tornam gerais, que são feitos para representar Ideias gerais, e aqueles que permanecem particulares, onde as Ideias para as quis eles são usados são particulares.

§ 3. Comentário

Apenas tornar as palavras sinais de ideias não basta para o uso eficiente da linguagem. Locke observa que, se cada coisa particular precisasse de um nome específico, a quantidade de termos seria tão grande que inviabilizaria a comunicação. Por isso, surge a necessidade do uso de termos gerais – definidos aqui como palavras que representam ideias gerais e, assim, se referem a múltiplas entidades particulares ao mesmo tempo.

Esse “aperfeiçoamento” se dá justamente pela coapacidade de abstrair características comuns e expressá-las por meio de termos gerais. Evitar a proliferação desnecessária de termos torna a comunicação mais ágil. O uso de abstração para representar ideias gerais, em vez de ideias particulares, possibilita uma melhor organização e comunicação do pensamento.


§ 4. Para torná-los sinais gerais

Além desses nomes que representam ideias, existem outras palavras que os homens utilizam, não para significar qualquer ideia, mas a ausência ou privação de algumas ideias simples ou complexas, ou de todas as ideias juntas; como as palavras nihil em latim e, em inglês, ignorância e esterilidade. Todas essas palavras negativas ou privativas não podem ser ditas como pertencentes propriamente ou significarem nenhuma ideia, pois, nesse caso, seriam sons totalmente insignificantes; mas elas se referem a ideias positivas e significam sua ausência.

§ 4. Comentário

Ao abordar uma classe especial de palavras, as palavras negativas ou privativas – como “nada” ou “ignorância” – Locke nos diz que tais termos não se referem diretamente a uma ideia positiva, mas à ausência ou privação de alguma ideia simples ou complexa. A ausência de uma ideia positiva como referente poderia tornar as palavras negativas destituídas de significado, contudo, a estratégia de remetê-las a ideias positivias sob a forma de falta ou inexistência dá um novo direcionamento a esse problema.

Sendo um pouco mais específico, o § 4 tangencia um problema fundamental da filosofia da linguagem: a possibilidade de se falar sobre o que não é. Esse problema tem sua formulação tradicional no Sofista de Platão, onde discute-se precisamente o problema do discurso falso e o desafio de dizer o “não-ser” sem cair em contradição ou enunciar algo sem nenhum sentido. Na perspectiva de Locke, o receio de que as palavras negativas fossem “sons perfeitamente sem significado” se dissipa ao propor que esses termos fazem referência indireta a uma ideia positiva (uma “presença” concebida) e expressam a sua privação. Dessa forma, a formulação de um discurso sobre o “não-ser” não fica impedida, pois as palavras negativas têm, sim, um sentido – ainda que derivado de algo que se nega ou do qual se reconhece a ausência.

A proposta de uma Referência Implícita abre a possibilidade de nomear o que “não existe” e o que “está ausente”. O tratamento das palavras negativas amplia o alcance do vocabulário humano e permitem que façamos referência tanto ao que existe quanto ao que não existe, sem incorrer em total falta de significado. Nesse ponto, Locke antecipa — ainda que não elabore de modo próprio — uma resposta ao impasse clássico sobre o “não-ser”, mostrando como a linguagem contorna a aparente contradição de falar significativamente sobre algo que não é.


§ 5. EM ÚLTIMA INSTÂNCIA, PALAVRAS DERIVADAS TEM COMO SIGNIFICADO IDEIAS SENSÍVEIS

Isso também pode nos conduzir um pouco à Origem de todas as nossas Noções e Conhecimento, se observarmos quão grande é a dependência que nossas Palavras têm de Ideias sensíveis comuns; e como aquelas que são empregadas para representar Ações e Noções totalmente afastadas da percepção sensorial obtêm sua origem dali, e partindo de Ideias sensíveis evidentes são transferidas para significações mais abstrusas, sendo usadas para ideias que não se encontram sob o alcance de nossos sentidos; por exemplo, imaginar, apreender, compreender, aderir, conceber, instilar, desgosto, perturbação, tranquilidade etc. são todas Palavras tiradas das operações de coisas sensíveis, aplicadas a certos Modos de Pensar. “Espírito”, em sua significação primária, é “sopro”; “anjo”, “mensageiro”; e não duvido de que, se pudéssemos rastreá-las até suas fontes, veríamos que em todas as Línguas os nomes que designam Coisas que não caem sob nossos Sentidos tiveram sua primeira origem em Ideias sensíveis. Por meio disso, podemos conjeturar, de certo modo, que tipo de Noções eram essas, e de onde provinham, as quais ocupavam a Mente daqueles que foram os primeiros Iniciadores das Linguagens; bem como perceber como a Natureza, até mesmo no ato de nomear as Coisas, inadvertidamente sugeriu aos Homens as Origens e Princípios de todo o seu Conhecimento: pois, para dar Nomes que pudessem tornar conhecidas aos outros quaisquer Operações que percebiam em si mesmos, ou quaisquer Ideias que não estivessem sob seus Sentidos, tiveram de tomar Palavras de Ideias comuns e conhecidas pela Sensação, de modo a facilitar para os outros a compreensão daquelas Operações que eles próprios experimentavam, mas que não apresentavam manifestação sensível externa. E então, quando já possuíam Nomes reconhecidos e acordados para significar essas Operações internas de sua própria Mente, estavam suficientemente preparados para, por meio de Palavras, tornar conhecidas todas as suas demais Ideias; uma vez que tais Ideias não poderiam consistir em outra coisa senão em Percepções sensíveis externas ou em Operações internas de suas Mentes a respeito delas; pois não temos, conforme ficou provado, absolutamente nenhuma Ideia que não provenha originalmente de Objetos sensíveis externos ou daquilo que sentimos dentro de nós mesmos, a partir das Operações internas de nosso próprio Espírito, das quais temos consciência em nosso íntimo.

§ 5. Comentário

O quinto parágrafo aprofunda a discussão da linguagem ao propor que nossas palavras, mesmo as que expressam operações ou conceitos abstratos (por exemplo, imaginar, compreender, conceber, aderir, etc.), originalmente derivam de ideias sensíveis. Esse parágrafo conecta a discussão da linguagem diretamente com os livros anteriores do Ensaio Sobre o Entendimento Humano. Ele mostra que, ao tentar nomear processos internos ou operações mentais que não se manifestam externamente aos sentidos, os usuários da linguagem recorrem a termos ancorados em experiências sensíveis para dar conta de “coisas” menos tangíveis.

Essa análise traz à tona alguns pontos fundamentais da teoria do conhecimento e da filosofia da linguagem de Locke:

  1. Dependência das Ideias Sensíveis e as bases do empirísmo
    Locke enfatiza que toda a comunicação remonta à experiência: inicialmente, temos as ideias que recebemos de nossos sentidos (sensações e sentimentos), e depois refletimos sobre elas ou sobre as operações da mente. Aquilo que foi chamado de ideias abstratas ou conceitos intangíveis (“espírito”, “imaginar”, “compreender” etc.) é, em grande parte, fruto de uma transferência ou metáfora de termos originalmente associados a objetos e eventos perceptíveis. Desta maneira, toda nossa linguagem sobre fenômenos internos e privados nasce da linguagem sobre fenômenos externos que afetam nossos sentidos.
  2. Origem do Conhecimento
    O argumento sobre a linguagem se compromete com a discussão anterior sobre a fonte e origem dos conhecimentos. Todo nosso vocabulário é composto a partir da experiência externa (pelos sentidos) ou da interna (pelas operações da mente). A relação de “dependência” que existe entre as palavras ideias e as sensíveis é um indicador que nos mostra “o tipo de ideias que ocuparam a mente dos primeiros que começaram a nomear coisas”. Isso reforça a tese de Locke de que não possuímos ideias inatas; toda a estrutura epistemológica se constrói gradualmente, a partir da observação do mundo ou dos processos mentais.
  3. Construção das Linguagens
    Para Locke, os primeiros “inventores” das palavras precisaram “emprestar” termos de objetos sensíveis para descrever fenômenos psicológicos ou espirituais. É por isso que encontramos tantas expressões — mesmo em línguas modernas — que vêm de raízes ligadas a ações físicas (instill, apprehend, adhere) ou sensíveis (“espírito” vindo de “sopro”; “anjo” vindo de “mensageiro” etc.). Essa adaptação linguística mostra como a linguagem evolui de forma mecânica (através do uso popular e cotidiano) e ao mesmo tempo criativa, pois transpõe significados de um contexto físico para um contexto mental ou metafísico.
  4. Implicações Epistemológicas
    Quando Locke afirma que, possuindo nomes para operações internas, “estamos suficientemente munidos para comunicar quaisquer outras ideias”, ele realça que a nossas capacidades de nomear e de pensar estão intimamente correlacionas com nossas experiências externas e nossas reflexões internas. Essa interdependência linguagem–experiência–conceito é fundamental para compreendermos a forma como o conhecimento se estrutura:
    • Sem a ancoragem em experiências sensíveis, não haveria como formar as primeiras representações, nem tampouco base para metáforas ou analogias necessárias à expressão dos estados internos.
    • Sem a reflexão interna, ficaríamos restritos às impressões sensíveis, sem desenvolver termos para as operações mentais que não possuem manifestação direta no plano físico.

O §5 revela o quanto, na perspectiva de Locke, a linguagem e o pensamento se enraízam na experiência sensorial e na reflexão: tudo aquilo que não cai sob os sentidos precisa ser nomeado usando, inicialmente, palavras que se referem a objetos ou ações que já conhecemos sensivelmente. A partir dessa base, conseguimos expandir o vocabulário para abarcar o mental, o abstrato, o complexo e o invisível — processo que se remete não só sobre a história das línguas, mas também sobre a própria origem das nossas ideias e os fundamentos do conhecimento.


§ 6. DISTRIBUIÇÃO DOS TEMAS A SEREM TRATADOS

Além desses nomes que representam ideias, existem outras palavras que os homens utilizam, não para significar qualquer ideia, mas a ausência ou privação de algumas ideias simples ou complexas, ou de todas as ideias juntas; como as palavras nihil em latim e, em inglês, ignorância e esterilidade. Todas essas palavras negativas ou privativas não podem ser ditas como pertencentes propriamente ou significarem nenhuma ideia, pois, nesse caso, seriam sons totalmente insignificantes; mas elas se referem a ideias positivas e significam sua ausência.

§ 6. Comentário

No parágrafo de encerramento do capítulo, Locke delineia as preocupações centrais que guiarão suas reflexões seguintes. Ele aponta que, para compreender plenamente o “uso e a força da linguagem” a serviço do conhecimento e da instrução, é preciso considerar:

  1. O que exatamente as Palavras nomeiam
    identificando o objeto de referência imediata das palavras em seu uso cotidiano — ou seja, perceber se elas se voltam para ideias, para coisas específicas ou para grupos (espécies e gêneros).
  2. O fato de que (com exceção dos nomes próprios) todas as Palavras são gerais
    reconduzindo a questão de como surgem essas “espécies” e “gêneros” na linguagem. Locke sugere que não falamos apenas de entidades singulares, mas precisamos levar em conta como classificamos e agrupamos as coisas — ponto fundamental para a produção de conhecimento por meio de proposições universais.

Ao final, Locke antecipa que o exame de “espécies e gêneros” e de maneira como tal exame se constitui irá esclarecer tanto o uso correto das palavras, quanto as vantagens e desvantages da linguagem natural. Esse exame também será capaz de fornecer os remédios necessários para evitar a obscuridade,a vagueza e a ambugidade na significação das palavras.

Em sintonia com suas considerações anteriores, Locke reforça o nexo profundo entre linguagem e conhecimento. Como ele mesmo salienta, o conhecimento “ocupa-se de proposições” e, “na maioria das vezes, de proposições universais” — o que dá às palavras uma importância maior do que se costuma suspeitar.


Conclusão

Neste primeiro capítulo, Locke apresenta a linguagem como um instrumento fundamental para a comunicação e o conhecimento. Esse instrumento opera por meio de dois mecanismos de significação:

  1. Nomes que nomeiam ideias por referência direta: Essas palavras designam, de modo mais imediato, as concepções que formamos a partir de nossas sensações ou reflexões.
  2. Nomes que nomeiam uma ausência ou privação por referência indireta: São as palavras “negativas” ou “privativas”, como “ignorância”, “nada”, “esterilidade”, que só ganham significado ao apontarem para a falta de algo que, positivamente, já está representado em nossa mente.

Como consequência, a linguagem, para Locke, não é apenas um repertório de sons, mas um sistema sofisticado que ancora a transmissão do nossos pensamentos em sinais — sejam eles referentes ao que está presente ou ao que está ausente — permitindo a troca de ideias entre as pessoas. Além disso, a necessidade de agrupar objetos e fenômenos (por meio de nomes gerais, espécies e gêneros) e de exprimir até mesmo o “não ser” ou a “falta” salienta a flexibilidade e alcance desse instrumento. Tudo isso confirma o papel central da linguagem na transmissão do conhecimento, pois, sem esses dois eixos de significação (presença e ausência), a comunicação das nossas ideias não atingiria nem clareza nem precisão. Ao encerrar este capítulo, Locke não apenas conclui a discussão prévia sobre palavras e ideias, mas também estabelece o vocabulário conceitual para os capítulos seguintes, nos quais a análise das generalizações será o núcleo do debate filosófico.


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