A LÓGICA, OU A ARTE DE PENSAR
1§ A Lógica é a arte de bem conduzir sua razão no conhecimento das coisas, tanto para instruir a si mesmo quanto para instruir os outros.
2§ Esta Arte consiste nas reflexões que os homens fizeram sobre as quatro principais operações do espírito: conceber, julgar, raciocinar e ordenar.
3§ Denomina-se conceber a simples visão que temos das coisas que se apresentam ao nosso espírito; como quando nós nos representamos um sol, uma terra, uma árvore, um círculo, um quadrado, o pensamento, o ser, sem formar qualquer julgamento expresso; e a forma pela qual nós nos representamos essas coisas que se chamam idéias.
4§ Denomina-se julgar a ação do nosso espírito pela qual, colocando juntas as diversas idéias, afirma-se de uma que ela é outra, ou nega de uma que ela seja a outra; como quando tendo a ideia da terra e a ideia de redondo, eu afirmo da terra que ela é redonda, ou eu nego que ela seja redonda.
5§ Denomina-se raciocinar, a ação do nosso espírito pela qual forma-se um julgamento de vários outros; como quanto tendo julgado que a verdadeira virtude deve ser referida à Deus, e que a virtude dos Pagãos não é referida [a Deus], conclui-se que a virtude dos pagãos não é uma verdadeira virtude.
6§ Denomina-se ordenar, a ação do espírito pela qual, tendo sobre um mesmo sujeito, como sobre o corpo humano, diversas idéias, diversos julgamentos e diversos raciocínios, dispõe-se da maneira mais própria para que se possa conhecer esse sujeito. É isso que se denomina, todavia, método.
7§ Tudo isso se faz naturalmente, e muitas vezes é feito melhor por aqueles que não aprenderam nenhuma regra da lógica do que por aqueles que as aprenderam.
8§ Assim, esta Arte não consiste em encontrar uma maneira de fazer essas operações, porque a natureza por si só nos fornece ao nos dar a razão, mas ao fazer as reflexões sobre isto que a natureza nos faz fazer, que nos serve para três coisas:
9§ A primeira é estarmos seguros de que nós usamos bem a nossa razão, porque a consideração da regra nos faz prestar uma nova atenção;
10§ A segunda é descobrir e explicar mais facilmente o erro, ou o defeito, que se pode encontrar nas operações do nosso espírito, pois acontece frequentemente que se descubra, somente pela luz natural, que um raciocínio é falso, e não que se descubra, entretanto, a razão porque ele é falso, como alguém que não sabe nada sobre pintura pode ficar chocados com um defeito de um quadro, sem poder, entretanto, explicar qual é este defeito que o choca.
11§ A terceira é de nos fazer conhecer melhor a natureza de nosso espírito pela reflexão que nós fazemos sobre essas ações. Isto é, por si mesmo, mais excelente, considerado em um ponto de vista especulativo, do que o conhecimento de todas as coisas corpóreas, que são infinitamente menores do que aquelas espirituais.
12§ Pois, se a reflexões que fazemos sobre nosso pensamentos nunca tivessem sido relacionadas a nós mesmos, teria sido suficiente considerá-las em si mesmas, sem vestí-las com nenhuma palavra nem de nenhum outro signo; mas por não podermos fazer entender nossos pensamentos aos outros, se não quando acompanhados dos signos exteriores, e que este mesmo hábito é tão forte que quando nós somente pensamos, as coisas não se apresentam ao nosso espírito com as palavras que nós acostumamos a revestí-las ao falar com os outros, é necessário, na lógica, considerar as idéias em conjunto com às palavras e as palavras em conjunto com às idéias.
13§ De tudo o que acabamos de dizer, segue-se que a lógica pode ser dividida em quatro partes, segundo às diversas reflexões que fizemos sobre as quatro operações do espírito.
PRIMEIRA PARTE
Contém as reflexões sobre as idéias, ou sobre a primeira ação do espírito, que se chama conceber.
1§ Como nós podemos ter qualquer conhecimento disto que está fora de nós se não por intermédio das idéias que estão em nós, das reflexões que se pode fazer sobre as nossas idéias, são ou podem ser o que há de mais importante na lógica, porque são o fundamento de todo o resto.
2§ Pode-se reduzir estas reflexões à cinco principais, segundo as cinco maneiras pelas quais consideramos as idéias.
3§ A primeira, segundo sua natureza e sua origem.
4§ A segunda, segundo a principal diferença dos objetos que elas representam.
5§ A terceira, segundo sua simplicidade ou composição; em que nós trataremos das abstrações e precisões do espírito.
6§ A quarta, segundo seu entendimento ou restrição, isto é, sua universalidade, particularidade, singularidade.
7§ A quinta segundo sua clareza, e obscuridade, ou distinção e confusão.
CAPÍTULO I
Das idéias segundo sua natureza e sua origem.
1§ A palavra da ideia é do numero daquelas que são tão claras que não se podem explicar por outras, porque não há nada mais claro e mais simples.
2§ Mas tudo isto que se pode fazer para impedir que não se engane, é marcar a falsa inteligência que se poderia dar à esta palavra, restringindo a esta única maneira de conceber as coisas, que se faz pela aplicação de nosso espírito às imagens que são pontadas e nosso cérebro, e que se chama imaginação.
3§ Pois, como Santo Agostinho observa freqüentemente, o homem desde o pecado é tão acostumado à considerar as coisas corporais, cujas imagens entram pelos sentidos no nosso cérebro, que a maioria crê poder conceber uma coisa, quando ele podem apenas imaginá-la, isto é, se a coisas representasse sobre uma imagem corporal; como se houvesse em nós uma única maneira de pensar e de conceber.
4§ No lugar que se pode fazer uma reflexão sobre isto que se passa em nosso espírito, se reconheça que nós concebemos um número muito grande de coisas sem nenhuma de suas imagens, e que se aperceba da diferença que há entre a imaginação e a pura intelecção. Pois quando, por exemplo, eu imagino um triângulo, eu não o concebo somente como uma figura terminada por três linhas retas, mas, além disso, eu considero essas três linhas como apresentadas pela força e pela aplicação interior do meu espírito, e é propriamente isto que se chama imaginar. Se eu queira pensarem em uma figura de mil ângulos, eu concebo bem a verdade que é uma figura composta de mil lados, tão facilmente quanto concebo que um triangulo é uma figura composta de três lados somente, mas eu não posso imaginar os mil lados desta figura, nem por assim dizer posso olhá-lo como presente com os olhos do meu espírito.
5§ É verdade, no entanto, que o costume que nós temos de nos servir de nossa imaginação quando nós pensamos nas coisas corporais, faz freqüentemente com que concebemos uma figura de mil ângulos que se representa confusamente tal figura; mais é evidente que esta figura que se representa agora pela imaginação, é [poit] uma figura de mil ângulos, uma vez que ela não difere em nada do que eu representaria se eu pensasse em uma figura de dez mil ângulos, e que serve em alguma maneira de descobrir as propriedades que fundam a diferença de uma figura de mil ângulos com todos os outros polígonos.
6§ Eu posso, portanto, imaginar propriamente uma figura de mil ângulos, visto que a imagem que eu gostaria de pintar na minha imaginação, me representaria todas as outras figuras de um grande número de ângulos tão logo quanto esta de mil ângulos, e no entanto, eu posso concebê-la muito claramente e muito distintamente, visto que eu posso demonstrar todas as propriedades, como se o conjunto de todos esses ângulos é igual a 1996. ângulos retos: e por conseqüência é outra coisa de se imaginar, e outra coisa de se conceber.
7§ Aquela é ainda mais clara pela consideração de mais coisas que nos concebemos mais claramente, embora sejam algum tipo do número daquelas que se pode imaginar. Pois nós concebemos mais claramente nossos pensamentos quando nós pensamos? E, contudo, é possível de imaginar um pensamento nem pintar qualquer imagem em nosso cérebro. O sim e o não aí podem também ter nenhuma, aquele que julga que a Terra é redonda e aquele que julga que ela não é redonda tendo todos os dois as mesmas coisas pintadas no cérebro, a saber a terra, e a circularidade, mas um, acrescentando a afirmação, que é uma ação do seu espírito, a qual ele concebeu sem nenhuma imagem corporal, e o outro, uma ação contrária que é a negação a qual pode-se ter ao menos uma imagem.
8§ Então, por conseguinte, nós falamos das idéias, nós não chamamos de nome às imagens que são pintadas na fantasia, mas toda esta que é no nosso espírito, quando podemos dizer com verdade que nós concebemos uma coisa, de alguma maneira que nós a concebíamos.
9§ Donde se segue que não podemos exprimir nada pelas nossas palavras quando entendemos isto que nos dissemos, que dela mesma não seja certo que temos em nós a idéia da coisa que significamos pelas nossas palavras, embora esta idéia seja as vezes mais clara e mais distinta, e as vezes mais obscura e mais confusas, como explicaremos abaixo. Porque haveria contradição entre dizer que eu sei isso que eu digo pronunciando uma palavra e que, no entanto, eu não concebo nada pronunciando o som da mesma palavra.
10§ E é isso nos faz ver a falsidade de duas opiniões muito perigosas que tem sido avançada por filósofos deste tempo.
11§ A primeira é que não tenhamos nenhuma ideia de Deus. Porque se nós não tivermos nenhuma ideia, ao pronunciarmos o nome de Deus, nós não conceberíamos que estas quatro letras D, E, U, S; e um francês não teria nada a mais no espírito ao ouvir o nome de Deus, do que entrando numa sinagoga, e totalmente ignorante da língua hebraica, ele ouvisse pronunciar em hebraico Adonai, ou Eloah.
12§ E quando os homens tomaram o nome de deus, como Calígula e Domitio, eles não teriam cometido nenhuma impiedade, porque não haveria nada nestas letras ou nessas duas silabas Deus, que se pudesse ser atribuído à um homem se elas não se ligassem à nenhuma idéia. Donde vem que se que não se deve acusar um holandês de ser ímpio por se chamar Ludovico de Deus! Em que consiste, portanto, a impiedade desses príncipes, senão em que, deixando-se à palavra Deus ao menos uma parte de sua ideia, como a da natureza excelente e adorável, eles se apropriem desse nome com essa ideia?
13§ Mas, Se não tivéssemos a ideia de Deus, sobre o quê poderíamos fundar tudo o que dizemos de Deus, como que só há um, que ele é eterno, todo-poderoso, totalmente bom, totalmente sábio, pois nada disso se encerra nesse som, Deus, mas somente na ideia que temos de Deus e que juntamos a esse som.
14§ E é só por isso também que recusamos o nome de Deus a todas as falsas divindades; não porque essa palavra não lhes pudesse ser atribuída, caso fosse tomada materialmente, uma vez que lhes foi atribuída pelos pagãos; mas porque a ideia que está em nós do Ser Supremo e que o uso ligou à palavra Deus convém unicamente ao verdadeiro Deus.
15§ A segunda dessas falsas opiniões é a de um inglês que disse que: “o raciocínio não pode ser outra coisa que uma combinação e encadeamento de nomes pela palavra é. Daí seguir-se-ia que pela razão não concluiríamos absolutamente nada no tocante à natureza das coisas, mas apenas no que toca aos seus nomes; quer dizer que vemos simplesmente se combinamos bem ou mal os nomes das coisas segundo as convenções que tenhamos feito com nossa fantasia, no que respeita as suas significações.”
16§ A isso esse autor acrescenta: se é assim, como pode ser que seja, o raciocínio dependerá das palavras; as palavras, da imaginação e a imaginação dependerá talvez, como eu creio, do movimento dos órgãos corporais: e assim nossa mente (mens) são será outra coisa que o movimento em algumas partes do corpo orgânico.
17§ É preciso crer que essas palavras contêm somente uma objeção longínqua da visão de quem a propõe; mas como,tomadas assertivamente, elas arruinariam a imortalidade da alma, é importante desvelar sua falsidade, coisa que não será difícil. Pois as convenções de que esse filósofo fala não podem ter sido senão os acordos que os homens fizeram de tomar alguns sons por signos de ideias que temos no espírito. De sorte que, se além dos nomes não tivéssemos em nós mesmos as ideias das coisas, essa convenção teria sido impossível, como é impossível, por meio de uma convenção qualquer, fazer um cego entender o que quer dizer a palavra vermelho, verde, azul; porque, não tendo essas ideias, ele não pode as associar a som algum.
18§ Ademais, as diversas nações deram nomes diversos às coisas, tanto às mais claras e mais simples, como aquelas que são objeto da geometria, mas não o fizeram com os raciocínios, no que concerne às mesmas verdades, caso o raciocínio fosse somente uma combinação de palavras através da palavra é.
19§ E como parece, por essas diversas palavras, que os árabes, por exemplo, não estabeleceram convenção alguma com os franceses para dar as mesmas significações aos sons, não poderiam tampouco concordar em seus juízos e raciocínios, se os raciocínios dependessem dessa convenção.
20§ Enfim, há um grande equívoco na palavra aarbitrário, quando se diz que a significação das palavras é arbitrária. Pois é verdade que é uma coisa puramente arbitrária, como juntar uma ideia tal a um som, no lugar de outro; mas as ideias não são coisas arbitrárias, que dependem de nossa fantasia, ao menos aquelas que são claras e distintas; e, para mostra-lo evidentemente, seria ridículo imaginar que efeitos muito reais pudessem depender de coisas puramente arbitrárias. Ora, quando, por seu raciocínio um homem concluiu que o eixo de ferro, sendo o buraco pelo qual ele passaria redondo, poderia virar sem que as pedras também girassem, mas que, fosse o buraco quadrado, ele não poderia virar sem fazer com que as pedras o fizessem, uma vez encaixado que estaria num buraco quadrado dessa pedra, o efeito pretendido seguir-se-ia infalivelmente. E, por conseguinte, seu raciocínio não teria sido uma combinação de nomes segundo uma convenção que teria dependido inteiramente de uma convenção entre os homens, mas um juízo sólido e efetivo da natureza das coisas, pela consideração das ideias que se tem no espírito, as quais ocorre aos homens de marcarem com certos nomes.
21§ Vemos suficientemente, portanto, o que entendemos pela palavra ideia: não nos resta mais a dizer senão uma palavra sobre sua origem.
22§ Toda a questão é de saber se todas as nossas ideias têm origem nos nossos sentidos, e se devemos deixar passar como verdadeira esta máxima: nihil est in intellectus quod non prius fuerit in sensu.
23§ É essa a opinião de um filósofo estimado no mundo, e que começa sua Lógica com esta proposição: Omnis idea ortum ducit a sensibus: Toda ideia tem sua origem nos sentidos. Ele concede, contudo, que todas as nossas ideias não tinham estado em nossos sentidos tal como estão no nosso espírito; mas ele presume que elas tenham ao menos sido formadas a partir daquelas que passaram pelos sentidos, ou por composição, como quando das imagens separadas do ouro, ou de uma montanha faz-se uma montanha de ouro; ou por ampliação, ou por diminuição, como quando da imagem de um homem de uma grandeza ordinária se forma um gigante ou um pigmeu; ou por acomodação e proporção, como quando, da ideia de uma casa que se viu, forme-se a imagem de uma casa que não se viu. E assim, ele diz, concebemos Deus, que não pode cair sob os sentidos, sob a imagem de um senhor venerável.
24§ Segundo esse pensamento, ainda que nenhuma de nossas ideias fosse semelhante a um corpo particular qualquer que tenhamos visto ou que tivesse afetado nossos sentidos, elas seriam todas corporais e não nos representariam coisa alguma que não tenha entrado pelos nossos sentidos, ao menos por partes. E assim não conceberíamos nada senão pelas imagens semelhantes às que se formam em nosso cérebro, quando vemos ou imaginamos esses corpos.
25§ Porém, mesmo que essa opinião seja comum a vários filósofos da Escola, eu não receio dizer que é muito absurda, e também contrária, tanto à Religião como à verdadeira Filosofia. Pois, para não dizer nada que não seja claro, não há nada que concebamos mais distintamente que o nosso próprio pensamento, nem proposição que nos pudesse ser mais clara que esta aqui: Eu penso, logo sou. Ora, não poderíamos ter qualquer certeza dessa proposição se não concebêssemos distintamente o que é ser e o que é pensar; e não é preciso pedir que expliquemos esses termos, porque eles são da natureza daqueles que são tão bem entendidos por todo mundo que querer explicá-los iria obscurecê-los. Se, portanto, não se pode negar que temos em nós as ideias de ser e de pensamento, eu pergunto: através de quais dos sentidos elas entraram? São elas luminosas ou coloridas, para terem entrado pela vista? De um som grave ou agudo, para terem entrado pelos ouvidos? De um bom ou mau odor, para terem entrado pelo olfato? De sabor bom ou mau, para terem entrado pelo paladar? Frios ou quentes, duros ou moles, para terem entrado pelo tato? Pois se dizemos que foram formadas a partir de outras imagens sensíveis, que nos digam quais são essas outras imagens sensíveis a partir das quais se pretende que as ideias de ser e de pensamento tenham sido formadas, e como elas puderam ser formadas, ou por composição, ou por proporção. Dado que se não se possa responder a tudo isso sem ser implausível, é preciso conceder que as ideias de ser e de pensamento não têm de maneira alguma sua origem nos sentidos; mas que nossa alma tem a faculdade de forma-las por si mesma, ainda que frequentemente aconteça que ela seja estimulada a fazê-lo através de uma coisa qualquer que toque os sentidos, como um pintor pode ser levado a fazer um quadro pelo dinheiro que lhe prometeram, sem que se possa dizer, por isso, que o quadro tem sua origem no dinheiro.
26§ Contudo, o que esses mesmos autores acrescentam, que a ideia que temos de Deus tem sua origem nos sentidos, porque o concebemos sob a ideia de um senhor venerável, é um pensamento digno apenas dos Antropomorfistas, ou dos que confundem as ideias verdadeiras que temos das coisas espirituais com as imaginações falsas que delas formamos por um mau hábito de querer imaginar tudo; ao passo que é tão absurdo se querer imaginar o que não é corporal como querer ouvir cores e ver sons.
27§ Para refutar esse pensamento, é preciso apenas considerar que se não tivéssemos outra ideia de Deus que não a de um senhor venerável, todos os juízos contrários à essa ideia que faríamos de Deus deveriam parecer falsos. Pois somos naturalmente levados a crer que nossos juízos são falsos quando vemos claramente que são contrários às ideias que temos das coisas; e assim não poderíamos julgar com certeza que Deus não tem partes, que não é corporal, que está em toda parte, que é invisível; porque todas essas coisas não são conformes à ideia de um senhor venerável. Mesmo que em alguns momentos Deus tenha sido representado sob essa forma, isso não faz com que essa seja a ideia que dele devamos ter, porque seria preciso que não tivéssemos do Espírito Santo outra ideia, que não a de um pombo, porque ele é representado sob a forma de um pombo; ou que concebêssemos Deus como um som, porque o som do nome de Deus nos serve para despertar a ideia dele.
28§ É, portanto, falso que todas as nossas ideias venham de nossos sentidos; pode-se ao contrário dizer que nenhuma ideia que está em nosso espírito tem sua origem nos sentidos, senão ocasionalmente, naqueles movimentos que se fazem em nosso cérebro, que é tudo o que nossos sentidos podem fazer, dando ocasião à alma de se formarem ideias que ela não formaria sem isso, embora quase sempre essas ideias não tenham coisa alguma de semelhante ao que ocorre nos sentidos e no cérebro, e que haja ademais um grande número de ideias que, não tendo absolutamente qualquer imagem corporal, não podem, sem uma absurdidade visível, serem relacionadas aos nossos sentidos.
29§ Se se faz a objeção de que, quando temos a ideia das coisas espirituais, como do pensamento, não deixamos de formar alguma imagem corporal, ao menos do som que ela significa, não dir-se-á nada de contrário ao que nós provamos; pois essa imagem do som do pensamento que nós imaginamos não é a imagem do próprio pensamento, mas somente a de um som, e ela não pode servir para nos fazer compreendê-la senão como alma sendo acostumada a, quando conceber esse som, conceber também o pensamento, forma-se então ao mesmo tempo uma ideia totalmente espiritual do pensamento, que não tem qualquer relação com aquela do som, mas que lhe é ligada apenas pelo hábito. É o que se vê com os surdos, que não têm imagens dos sons e não deixam de ter ideias de seus pensamentos ao menos quando fazem reflexão sobre o que pensam.
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