AVISO
Da primeira edição[1]
1§ O nascimento desta pequena obra deve-se inteiramente ao acaso, e antes a uma espécie de entretenimento, que a um propósito sério. Uma pessoa de condição mantendo um jovem senhor[2], que em tenra idade fez parecer muita solidez e penetração do espírito, disse a esse jovem, que ele tinha encontrado um homem que o tinha feito, em quinze dias, ser capaz de responder [questões] sobre uma parte da lógica. Esse discurso deu a ocasião a uma outra pessoa que estava presente e que não tinha grande estima por essa ciência de responder, rindo, que se o senhor… quisesse realmente tal coisa, ele faria o obséquio de ensiná-lo em quatro ou cinco dias tudo o que houvesse de útil na lógica. Esta proposta, lançada ao ar, foi discutida por algum tempo, resolveu-se tentar leva-la a cabo {fair l’essai}; mas como não se considerava as lógicas ordinárias nem curtas nem claras o bastante, pensou-se em fazer delas um pequeno resumo para ele.
2§ Essa era a única perspectiva que se tinha em vista quando se começou a trabalhar nela, e não se pensava em dedicar a isso mais do que um dia. Entretanto, quando se quis aplicar-se, tantas reflexões novas nos vieram ao espirito, que fomos obrigados a escrevê-las para descarregar. Assim, ao invés de um dia, empregou-se quatro ou cinco, durante os quais tomou forma o corpo desta Lógica, a qual, a partir de então, acrescentou-se diversas coisas.
3§ Ora, mesmo que se tenha abarcado muito mais assuntos do que aqueles com que se tinha comprometido no início, o projeto saiu, no entanto, como se havia prometido. Pois esse jovem Senhor, ao reduzi-la em quatro tábuas, aprendeu facilmente uma por dia, sem quase ter necessidade de ninguém para entende-la. É verdade que não se deve esperar que outros, que não ele, consigam fazê-lo com a mesma facilidade, pois seu espírito é bastante extraordinário em todas as coisas que dependam da inteligência.
4§ Eis o encontro que produziu esta obra. No entanto, qualquer que seja a opinião que dela se tenha, não pode, ao menos com justiça, desaprovar sua impressão, porque ela foi mais forçada do que voluntária. Pois muitas pessoas fizeram cópias de seu manuscrito, o que, como bem se sabe, não poder ser feito sem que se deixe passar muitos erros, e fomos avisados de que editores estavam dispostos a imprimi-la; de modo que julgamos mais conveniente disponibilizá-la ao público correta e inteira, do que permitir que fosse impressa em cópias defeituosas. Todavia, foi isso também o que nos obrigou a fazer-lhe vários acréscimos que aumentaram o seu tamanho original em mais de um terço[3], porque acreditamos que se devia estender estas visões para além daquilo que tínhamos feito no primeiro ensaio. Esse é o tema do discurso a seguir, onde se explica o fim a que se propôs e a razão dos assuntos de que trata esta Lógica.
ANÚNCIO
Sobre essa nova edição.[4]
1§ Foram feitos diversas acréscimos importantes à essa nova edição da lógica, ocasião que fora dada pelos ministros e suas queixas de algumas observações que havíamos feito; o que nos obrigou a esclarecer e sustentar as posições que quiseram atacar. Veremos, por esses esclarecimentos, que a razão e a fé se acordam perfeitamente, como se fossem fluxos da mesma fonte, e que não seria possível afastar-se de um, sem desviar-se do outro. No entanto, quaisquer que sejam as contestações teológicas que deram lugar a essas adições, elas não são menos próprias, nem menos naturais à Lógica; e poderíamos tê-los feito, mesmo que jamais houvessem ministros no mundo que tivessem quisto obscurecer as verdades da fé com falsas sutilezas.
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[1] Publicada em 1662
[2] Charles-Honoré d’Albert, duque de Chevreuse, morto em 1712. Filho do Duque Luynes, que traduziu para o francês as Meditações de Descartes
[3] O livro tornou-se, assim, bastante extenso.
[4] Referente à quinta edição.
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